Um celular sobre a mesa ou uma bolsa aberta é o que basta para que grupos de jovens, principalmente de menores de idade, cometam furtos e até arrastões nas noites de sexta-feira e sábado na Lapa, tradicional bairro boêmio carioca, na região central. Moradores, comerciantes e frequentadores da Lapa denunciam que a ação de adolescente aumentou nos últimos meses. Segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública), em janeiro deste ano foram registrados 511 furtos na área da Delegacia da Mem de Sá (5ª DP), 16% a mais que no mesmo período de 2011 (439) - o balanço de fevereiro ainda não foi divulgado.
Há dez anos na Lapa, Maria dos Anjos, que trabalha em uma das barracas legalizadas pela prefeitura, diz que os furtos ocorrem quase todo fim de semana.
- Depois de meia-noite tem correria. Há 15 dias, um menino cortou a cabeça de um gringo com uma garrafa. Eles agem nos arcos. Não é só estrangeiro que eles furtam. Até o meu carro de mão para levar embora as minhas mercadorias eles roubaram.
Vizinha de barraca de Maria, Rafaela Pimentel explica como os menores de idade atuam em grupo.
- Eles correm e ficam mudando de ponto. Conhecem todos os cantos da Lapa. Além disso, passam a mercadoria de um para o outro. Assim, quando são apanhados, não estão com o objeto levado.
A Polícia Militar afirma que o combate a esse tipo de crime é complicado em razão do modo de ação dos meninos e por se tratarem de adolescentes. Segundo a corporação, a região conta com policiamento específico de dez viaturas e 20 homens nos finais de semana, da noite até as 7h do dia seguinte.
De acordo com o subcomandante do Batalhão do Centro (5º BPM), major Luiz Claudio Régis, a abordagem preventiva de grupos de adolescentes depende da ação de outros órgãos, como Assistência Social e juizado.
- A questão do menor de idade é que só se pode agir quando ele de fato cometeu um delito ou há apoio de assistentes sociais e psicólogos para a retirada dele da rua. Se há um grupo de menores simplesmente andando pelas ruas, não podemos fazer nada.
O subcomandante diz que não são apenas adolescentes que cometem os furtos. Jovens de 19 e 20 anos ainda tentam se passar por menores de idade para receber o procedimento de apreensão de crianças e adolescentes: identificação na Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente e encaminhamento a um centro socioeducativo, e não a uma prisão.
Um comerciante que prefere não se identificar confirma que há policiamento, mas diz que não é suficiente devido ao comportamento dos criminosos.
- A maioria é pivete, que faz tudo de cara limpa. A situação não estava assim nem na época do Madame Satã [transformista e personagem da vida boêmia da Lapa na primeira metade do século XX.]. Gringo e mulher devem estar atentos quando passam debaixo dos arcos.
Coordenador do movimento A Lapa é minha ou a Lapa é nossa, Vinicius Mesqueu, afirma que a preocupação com a ação dos menores é debatida há algum tempo. Entretanto, os casos parecem ter se agravado nos últimos meses.
- O crack está ganhando mais espaço por aqui. Os menores e alguns moradores de rua usavam mais cola. Agora estão consumindo crack a qualquer hora nas ruas Riachuelo e Mem de Sá. Eles parecem ter ficado mais violentos.
Casos de uso de arma e fogo e até mesmo facas em roubos acontecem com bem menos frequência que furtos. Em janeiro passado, foram registradas 158 ocorrências na 5ª DP, segundo o ISP. O major Régis diz que a principal diferença entre roubo e furto, não é o simples uso da violência, mas a identificação clara do criminoso para ajudar no trabalho da polícia.
- Quando ocorre um furto, a própria vítima pode demorar a perceber que um objeto seu foi levado e tem dificuldade de identificar o possível criminoso, o que dá tempo para o suspeito fugir, passar logo a mercadoria para outra pessoa do grupo ou jogar no chão para não ser apanhado com o objeto furtado.
O subcomandante avalia que, por enquanto, não há necessidade de alterar o policiamento. Segundo o major, quando a delegacia percebe uma mudança na rotina, como arrastões ou roubos de carro em determinada área, o batalhão é avisado.
- No Carnaval, recebemos o aviso de arrastão e corrigimos a situação. Mas, desde então, a situação voltou ao normal. A gente consegue manter certo controle. Por enquanto, não há necessidade de aumento.