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As conversas de Danúbia com vendedoras de lojas famosas da cidade e com parentes e amigos, que estavam sempre em contato para saber se ela precisava de alguma coisa, constam de um processo sobre lavagem de dinheiro da quadrilha de Nem, que corre na 29ª Vara Criminal.
Brinco de ouro encomendado por telefone
As investigações foram feitas pela 15ª DP (Gávea). Numa ligação de 14 de janeiro deste ano, a irmã de Danúbia, Telma de Souza Rangel, perguntou se ela queria alguma peça de um shopping da Zona Sul. A mulher de Nem, no entanto, respondeu que já tinha comprado duas blusas em outro estabelecimento na Barra. Mesmo assim, Telma comprou tops, macacões, calças e blusas para a irmã. Numa outra conversa, a vendedora de uma joalheria conhecida liga para Danúbia, informando que um brinco encomendado por ela já havia chegado à loja.
Outros hábitos de Danúbia vêm à tona, como a preferência por uma marca de vodca, cuja garrafa custa entre R$ 87 e R$ 102. Ela também gastava na decoração da casa na Cachopa, localidade da Rocinha, onde vivia com Nem, e chegou a desembolsar R$ 3,5 mil por uma jardineira.
— Ela ia constantemente a um shopping perto da Rocinha e pagava em dinheiro — ressalta o delegado da 15ª DP, Carlos Augusto Nogueira Pinto. — Eu entendo que o tráfico passa por uma cadeia de atos, desde o preparo e venda da droga até a obtenção de lucro. Ela participava de várias dessas fases mas, principalmente, desfrutava dos lucros obtidos ilicitamente.
Um denunciante ouvido pela polícia na última sexta-feira deixou claro que Danúbia participava ativamente junto ao bando de Nem. A testemunha contou que ela comprou uma residência com 18 quartos na comunidade para a mãe, Maria das Graças Souza Rangel, por R$ 80 mil. A compra foi feita em espécie. O valor real do imóvel seria R$ 200.000.
Também segundo a testemunha, Danúbia foi vista um dia antes da operação policial na Rocinha em que o morro foi ocupado, arrecadando dinheiro numa boca de fumo e colocando-o em sua bolsa. O dinheiro teria sido entregue a uma pessoa num Ford EcoSport preto. Danúbia era conhecida na comunidade como "xerifa".
Mãe de Danúbia tem Ford EcoSport de R$ 50 mil
Danúbia está presa na Cadeia Pública Joaquim Ferreira de Souza, desde o último dia 25. No processo sobre lavagem de dinheiro, estão citadas também a irmã dela e a mãe. Um relatório do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro da Polícia Civil (LAB-LD) informa que a mãe dela, Maria das Graças, possui em seu nome um Ford EcoSport, ano 2010/2011, com valor de mercado de R$ 50.282, que era usado por Danúbia. O veículo foi pago à vista com um cheque da mulher de Nem. Maria das Graças e Telma são sócias na firma Arco-Íris Espaço de Eventos LTDA, cuja sede fica na Rua da Ladeira 27, casa 6, Rocinha.
A investigação quebrou o sigilo bancário e fiscal não só de parentes, mas também de outras pessoas ligadas a Nem. De acordo com o LAB-LD, o ex-presidente da Associação de Moradores da Rocinha Vanderlan Barros de Oliveira, o Feijão, e o irmão dele, Telmo de Oliveira Barros, foram os que tiveram o maior aumento de patrimônio.
Para analistas da polícia, Telmo pode ter sido usado como "laranja" por Nem. Ele e o irmão, juntos, movimentaram R$ 1,2 milhão. Em 2010, Telmo comprou uma picape Ford Ranger XLT 12A, ano 2010, avaliada em R$ 54.430. Vanderlan é um dos donos da V. Barros Comércio de Acessórios de Veículos.
No relatório, os analistas concluem que Vanderlan, Telmo e a empresa V. Barros Comércio de Acessórios de Veículos "apresentaram as movimentações financeiras mais expressivas em magnitude".
Na última sexta-feira, o Ministério Público estadual denunciou Danúbia por associação para o tráfico e pediu a prisão preventiva dela. A denúncia foi recebida e a prisão decretada pela 14 Vara Criminal.
Nem, que foi chefe do tráfico na Rocinha nos últimos seis anos, foi preso quando tentava escapar do cerco à favela no porta-malas de um carro. Ele foi transferido, a pedido da Secretaria de Segurança, para a Penitenciária Federal de Campo Grande.



A produção pesa no bolso dos contribuintes. Até o ano passado, como admite o próprio presidente da Casa, Jorge Felippe (PMDB), a Câmara do Rio, com 51 vereadores, era a mais cara do país: foram pagos R$ 308,3 milhões para manter as atividades dos parlamentares cariocas. Levando-se em conta os 161 dias úteis de 2010, a instituição custou R$ 1,9 milhão por dia. Felippe garante que, assim que o exercício de 2011 for encerrado, o Rio perderá o título de campeão de gastos para São Paulo.
Para chegar aos números da máquina de congratulações, repórteres do GLOBO fizeram um levantamento durante dois meses com os dados disponíveis no site da Câmara (www.camara.rj.gov.br) do ano de 2010, o último fechado. O líder de homenagens, o médico Dr. Gilberto — que assumiu o cargo após a cassação de Carminha Jerominho — procurou caprichar nos textos dos diplomas de reconhecimento, a maioria voltado a enfermeiras: "(...) é uma arte; e para realizá-la como arte, requer devoção tão exclusiva, preparo tão rigoroso, quanto à obra de qualquer pintor ou escultor; pois o que é tratar da tela morta ou do frio mármore, comparado ao corpo vivo, o templo do espírito de Deus?"
Apesar das 1.879 moções, Dr. Gilberto afirma ter "conhecimento profundo" da maioria das pessoas a quem concedeu a honraria. Entre elas, estiveram inclusive 13 fundadores de seu partido.
— O número de homenagens à legenda foi até pequeno. São pessoas que trabalham com bastante qualidade, idôneas, que fazem um trabalho bacana para a cidade do Rio — ratifica ele.
Entre os contemplados pela Câmara, estão também cabos eleitorais. Dr. Jorge Manaia (PDT), autor de 382 moções, usou de belas palavras para agradecer o apoio dispensado no pleito do ano passado: "Eleger nossos representantes no Legislativo foi uma grande Vitória... Desta forma homenageio a todos os que atuaram como verdadeiros Soldados de Cristo na eleição de 2010".
Em nota enviada por e-mail, Manaia diz não ver problemas nesse tipo de congratulação: "Moção é uma espécie de proposição prevista no regimento interno desta Casa, pela qual os vereadores democraticamente manifestam, dentre outras possibilidades, todo seu regozijo. E assim o fiz, rigorosamente dentro dos preceitos legais que me compete (sic)".
Outro que se destacou pela farta distribuição de diplomas, com 1.426, foi o vereador Tio Carlos (DEM). Ele defende o derrame de confetes, voltado a profissionais que exercem principalmente trabalhos sociais ligados à criança e ao adolescente. Admite apenas um certo exagero:
— Talvez tenha me excedido no primeiro ano no caso das mães. Procuro homenageá-las porque minha mãe foi para o céu muito cedo, quando eu tinha 13 anos. É algo que faço com muita emoção — diz ele, ressaltando que nunca faltou a uma sessão da Casa e trabalha em 18 comissões.
Fiscalização prejudicada pela falta de informações
Apesar de os vereadores afirmarem que as moções têm custo ínfimo, são confeccionados diplomas, há publicação em Diário Oficial da honraria e, constantemente, o plenário é usado em solenidades para a entrega dos documentos.
No ranking da produção da Casa, depois das 13.325 moções, os vereadores se dedicaram arduamente em 2010 a elaborar 3.378 indicações legislativas — pedidos de benfeitorias, como podas e asfaltamentos — que dependem da boa vontade do prefeito para serem executadas. Em seguida, vieram os 988 requerimentos internos da Casa (pedido de utilização de espaços, por exemplo). Na quarta colocação estão os 818 requerimentos de informações ao Executivo. Teoricamente, esse seria o principal instrumento para que o vereador exerça seu papel fiscalizatório, cobrando dados e explicações da prefeitura. O prazo para respostas é de 30 dias, prorrogáveis por mais 30.
— Para se ter um ideia, temos 18 respostas pendentes, com atraso atualmente. No ano passado, tivemos até que recorrer ao Ministério Público para conseguir que a prefeitura retornasse os nossos pedidos. Muitas vezes, a resposta chega, mas incompleta e sem atender ao que perguntamos — comenta a vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), a que mais utilizou o instrumento em 2010, com 162 requerimentos.
Para o doutor em ciências políticas e diretor do Iuperj, Geraldo Tadeu, a produção da Câmara carioca reflete o que ele classifica de apequenamento do legislativo brasileiro, principalmente o municipal.
— A produção das câmaras municipais costuma ser pequena e de má qualidade. Quase irrelevante. Ficam reduzidas a grandes centros de convenções, concentradas na concessão de moções, títulos, resoluções declarativas etc... Com isso, o Executivo desempenha um papel de legislador mais efetivo do que os próprios legisladores.
