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A Polícia Civil do Rio encontrou na tarde desta sexta-feira (11) um corpo de uma mulher em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que pode ser da funcionária da ONG (Organização Não-Governamental) AfroReggae.Apesar do clima de aparente tranquilidade e da prisão de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, ainda é possível perceber que o tráfico da Rocinha se prepara para a ocupação por forças de segurança, prevista para acontecer no próximo domingo, para a instalação de uma futura Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Na manhã desta sexta-feira, usm homem com um radiotransmissor foi flagrado numa das vielas em cima do Túnel Zuzu Angel. Ele e outros homens observavam, lá de cima, a movimentação de policiais militares do Batalhão de Choque (BPChq) nos acessos à favela e, possivelmente, avisavam pelo rádio aos cúmplices sobre o que acontecia na parte baixa da comunidade.
Durante a madrugada, dois homens foram presos quando saíam da Rocinha por PMs. Um deles estava com um táxi roubado e o outro, seguia num ônibus com uma pistola e munição. Ambas as ocorrências foram registradas na 15ª DP (Gávea).
Até ser preso no final da tarde de quarta-feira escoltando traficantes da Rocinha, o policial civil Carlos Daniel Ferreira Dias, lotado desde agosto na Delegacia de Repressão a Crimes contra a Saúde Pública, era uma referência na polícia em assuntos ligados à investigações da quadrilha de Nem. Em 2006, quando era inspetor da 15ª DP (Gávea) — ele ficou cinco anos na distrital —, Daniel foi responsável por dezenas de investigações que resultaram em mandados de prisão de traficantes da Rocinha. Ninguém imaginava, no entanto, que ele também estava na folha de pagamento do bandido.
Em um inquérito instaurado pela 15ª DP, em janeiro de 2006, e que tramita na 33ª Vara Criminal, o inspetor Daniel é responsável pelo relatório de investigação que resultou em mandados de prisão para bandidos da quadrilha. No documento, Nem é citado como chefe do tráfico da favela, ao lado de João Rafael da Silva, o Joca, que está preso. Além deles, são citados ainda vários seguranças dos pontos de venda de drogas. Ainda há menções a seguranças, gerentes e abastecedores da Rocinha.
"O primeiro contato, em geral, é estabelecido com o traficante Antônio Lopes, o qual tem a função de receber visitantes (traficantes) de outras comunidades, determinar diretamente aos seus subordinados que realize estes ou aqueles atos direcionados a atividade de tráfico de entorpecentes", diz Daniel, em seu relatório sobre a Rocinha.

RIO - O cerco a traficantes da Rocinha já ultrapassa os acessos à comunidade. Na manhã desta sexta-feira, um homem suspeito de ser um dos chefes da segurança do traficante Antonio Bonfim Lopes, o Nem, foi preso durante uma operação da Polícia Militar na Favela Vila Vintém, na Zona Oeste do Rio. Outros nove suspeitos foram presos, sendo que seis confessaram que fugiram da Rocinha, segundo a PM. Um outro suspeito morreu na troca de tiros com homens do 14º BPM (Bangu). Segundo o comandante 14º BPM (Bangu), tenente-coronel Alexandre Fontenelle, os presos contaram que são da Favela da Rocinha e teriam fugido do local por causa da ocupação prevista para este fim de semana na comunidade, para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).
- Soubemos dessa possível fuga do pessoal da Rocinha para a nossa área e planejamos a operação durante a madrugada - disse Fontenelle.
A operação, que conta com dois carros blindados, já apreendeu três fuzis - dois FAL e um AR-15 - e uma pistola. O modelo AR-15 seria a arma usada na segurança pessoal de Nem e estava com um homem identificado como Pará, que, em conversa com os policiais que o capturaram, confessou ser uma espécie de "sombra" de Nem. Ele seria o responsável por acompanhar cada passo do chefão da Rocinha.
Pará teria fugido da Rocinha depois da prisão de Nem e, desde a noite desta quinta-feira estaria refugiado na Vila Vintém. Ele teria participado de um confronto com os policiais do batalhão de Bangu e ficou levemente ferido. Pará foi levado para a 34ª DP (Bangu), onde presta depoimento.
RIO - Num longo depoimento na sede da Polícia Federal na madrugada de quinta-feira, acompanhado por um grupo restrito de policiais federais, o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, chefe do tráfico na Rocinha, preso na quarta-feira na Lagoa , afirmou que metade de tudo que faturava com a venda de drogas era entregue a policiais civis e militares da banda podre. A propina gorda seria entregue a numerosos agentes públicos. O traficante deu detalhes, inclusive datas, de casos de extorsão. Ainda no depoimento, o criminoso afirmou que, devido às constantes extorsões, em alguns períodos seu faturamento era zero. Segundo algumas estimativas da Polícia Civil, não confirmadas no depoimento, o bandido faturava mais de R$ 100 milhões por ano.
- Metade do dinheiro que eu ganhava era para o "arrego" (gíria para propina) - afirmou Nem.
- Quando me pediam, eu comprava tijolos e financiava a construção de casas na comunidade - disse.
O delegado Victor Hugo Poubel, coordenador da Delegacia de Combate ao Crime Organizado da PF, garantiu que as informações passadas pelo bandido serão investigadas em inquérito. Poubel afirmou também que outras prisões podem ocorrer nos próximos dias e que a PF tem acompanhado a movimentação dos bandidos do Rio, em especial os da Rocinha.
- Nossos policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) estão monitorando a movimentação de bandidos que porventura tentem fugir da Favela da Rocinha. Estamos trabalhando intensamente, com apoio da Secretaria de Segurança, numa troca constante de dados de inteligência - afirmou Poubel.
COLABOROU Elenilce Bottari

Rio - A montanha de dinheiro do mundo das drogas levou Nem a uma vida de conforto e os parentes, ao banco dos réus. A família do traficante foi indiciada em crimes financeiros e de lavagem de dinheiro por supostamente ajudar o criminoso a esconder seus ganhos ilícitos. Os pais e a mulher, Danúbia de Souza Rangel, estão entre os investigados pelos agentes da Divisão de Capturas Polinter.
Seus últimos seis anos foram vividos como rei. As mordomias foram reveladas quando a polícia encontrou sua casa de luxo na Rocinha, ano passado. O imóvel tinha salão de festas, piscina, churrasqueira e academia de ginástica. A TV de LCD de 42 polegadas, a geladeira de porta dupla em aço inox — avaliada em R$ 6 mil — e videogame PlayStation 3 chamaram a atenção dos agentes.
O refinamento que o traficante tentava demonstrar também estava no armário: ternos da grife italiana Armani, avaliados em R$ 20 mil, e uma coleção de sapatos e tênis. Entre os acessórios favoritos, pesados cordões de ouro dos quais Nem não abria mão.
Festas atraíam jogadores, pagodeiros e artistas
O lado extravagante de Antônio Bonfim o aproximava de jogadores de futebol, pagodeiros e artistas. Nem adorava promover festas e bailes para chamar personalidades. Alguns encontros chegaram à redes sociais e aos inquéritos policiais. Um dos casos mais famosos envolveu o atacante Vagner Love, então jogador do Flamengo e hoje no CSKA, de Moscou, que esteve num baile na favela, ao lado de traficantes armados, em 2009.
Quem mais municiou a polícia, no entanto, foi Danúbia de Souza Rangel, mulher de Nem. Seus passos eram noticiados no Orkut, como o passeio de helicóptero para conhecer o Rio. A jovem, exibindo cordão de ouro com pingente com a letra N, fez questão de fotografar cada etapa do passeio e divulgou-o na Internet.
